O SEGREDO DA LÍDER

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Aos 42, Patricia Frossard não abre mão de academia e agenda dos filhos para comandar a Philips no Brasil

NATÁLIA EIRAS

Há um ano, Patrícia Frossard, 42, achou que não tinha escutado direito quando, em um almoço, um colega lhe contou que ela estava sendo cotada para assumir a posição de “country manager” e comandar a operação da Philips no Brasil. “Na hora fiquei perguntando porque eles pensavam em mim”, fala em entrevista para Universa. O mesmo questionamento surgiu quando a advogada havia sido indicada, um ano antes, para a posição de chefe do departamento jurídico da empresa na América Latina.

O convite, porém, foi aceito imediatamente, diante de três condições -entre elas, entrar mais tarde no trabalho para poder frequentar a academia pelas manhãs e levar o filho semanalmente ao psicólogo. “Eu amo ser mãe, gosto de estar com o meu marido e minha família. Diria que este é o meu segredo de sucesso.” Ela conta que ter uma equipe competente e na qual pode confiar permite que sua agenda seja cumprida à risca.

Diante da pandemia, porém, ela viu sua rotina mudar completamente. Patricia conta sentir falta da atividade física e também tem enfrentado a sobrecarga do isolamento: enquanto trabalha para fazer a Philips passar por esse período com o mínimo de impacto, coordena o homeschooling. Como todas as mulheres, diz, está cansada. Mas busca aplicar o que recomenda a todas as outras: pegue leve com você.

Como a Philips tem enfrentado a pandemia no Brasil?

Todos estão sentindo os efeitos da pandemia, alguns mais, outros menos. A Philips está trabalhando em três frentes: a primeira é garantir a segurança e saúde dos nossos colaboradores. Nossos engenheiros de campo estão ajudando hospitais a manter equipamentos essenciais na sua melhor performance. Eles são verdadeiros heróis! A segunda ação é ligada ao que é crítico às necessidades dos nossos clientes, o que significa trabalhar muito próximo a eles, suportando com tecnologia e conhecimento. Em terceiro, temos que garantir a continuidade do nosso negócio.

Esta pandemia está forçando todas as indústrias, mais do que nunca, a procurar formas inovadoras de continuar servindo clientes de forma eficiente. Temos sorte de já termos muito madura a prática de home office, de forma que todos que trabalham no escritório puderam continuar normalmente.

Fazemos sessões virtuais com todos os funcionários com frequência, para controlar a ansiedade, para comunicar o que está sendo feito e abrimos sempre para perguntas. As pessoas estão preocupadas e a nossa transparência e proximidade faz total diferença. Temos oferecido, inclusive, sessões com psicólogos para ajudar a todos com o novo cenário em casa.

Como líder, como esse período tem sido para você?

O líder é uma pessoa comum. Minha rotina também mudou bastante, com crianças em casa, e meu marido, que é médico, indo ao hospital e voltando para casa, pois precisa fazer seu trabalho. Temos os receios normais de uma família, quando ao mesmo tempo tenho que focar em fazer a empresa passar por isso com poucos arranhões, pois temos que estar “saudáveis” como empresa, para poder manter os empregos e continuar crescendo tão logo isso tudo passe.

Eu não sou forte o tempo todo. Assim como qualquer ser humano, tenho altos e baixos, mas é principalmente aí que você vê que ter um time bem preparado é essencial, e eu tenho. Quando um está mais para baixo, ou outro está com mais energia, e isso vai equilibrando e fazendo passar. Mas é um dia após o outro.

Estou muito mais cansada, confesso. Minha rotina mudou completamente.

Além de toda a agenda normal de “business”, temos dois comitês de crise, um no Brasil e outro em LatAm [América Latina], e isso certamente demanda uma energia adicional grande. Além disso, não tem mais academia, que era uma rotina diária para mim, e tenho que ajudar as crianças no homeschooling.

Minha rotina não deve ser diferente de muitas mulheres que trabalham, e tenho certeza que todas estão mais cansadas física e emocionalmente. Mas quando há um tempo para parar e olhar tudo de cima, vejo que é hora de pegar leve consigo mesma, ficar perto de quem amamos. Isso vai passar e com certeza vamos sair pessoas melhores.

Keiny Andrade/UOL

Você era gerente do departamento jurídico e compliance da América Latina quando recebeu a proposta para se tornar country manager da Philips no Brasil. Como aconteceu?

Em abril do ano passado, Renato Carvalho, presidente da Philips do Brasil, recebeu uma proposta para ir para Novartis. Foi nesse momento que a empresa decidiu fazer uma mudança na posição, tirando a parte de negócios. Foi engraçado quando recebi o convite. Fui almoçar com o chefe [da operação] de América Latina e, como nós dois éramos parceiros no time de gerentes, estava falando com ele sobre quem poderia entrar no lugar do Renato. E aí ele me falou que estava conversando com o Henk Siebren de Jong [diretor de mercados internacionais da Philips] em dividir a posição.

Perguntei em quem eles estavam pensando. Ele apontou uma pessoa para as posições comerciais e, para a posição de gerenciamento, ele disse que estavam pensando em mim. Na hora eu não entendi direito e falei “ok”. Ele me perguntou o que eu achava e eu disse que a pessoa que estávamos falando antes era boa sim. E ele: “Patricia, estamos falando de você”. Juro, na hora fiquei me perguntando se era isso mesmo e questionei o porquê de ser eu. E ele disse que tinha certeza que ia dar certo e que não era só ele.

E como foi tomar essa decisão?

Eu nem pensei, na hora eu disse que aceitava [a promoção], mas que tinha as minhas condições.

A primeira era ter suporte do líder de América Latina por pelo menos um ano. Também disse que ia fazer ginástica todos os dias, então não chegaria no escritório às 9h da manhã e que todas as quintas sairia às 17h porque teria que deixar meu filho no psicólogo. Essas eram as minhas condições para seguir no processo.

E como tem sido exercer um posto diferente do que você vinha fazendo?

É estimulante, muito diferente do que é jurídico. É interessante porque quando você está em “legal” vai permeando todas as áreas, porque tem problemas e oportunidades em todas elas. E tenho um time sensacional. Eles me apoiam em tudo. Eles estão abertos a responderem minhas perguntas mais básicas, de quem ainda não entende tudo de negócios, mas, ao mesmo tempo, por eu vir de fora, faço perguntas que ninguém ainda tinha pensado. Você tira as pessoas daquilo [daquela situação de conforto].

Keiny Andrade/UOL

 

Você também se questionou ao assumir o cargo de diretora jurídica para América Latina. Mas é uma atitude que não vemos um homem na sua posição fazendo.

Exato.

Por que acha que você teve essa postura nesses momentos decisivos?

Justamente porque meu “background” não ser comercial. Assim como é muito raro ver uma pessoa de comercial ter background em “legal”. Fiquei me perguntando se teria apoio das pessoas para conseguir fazer um bom trabalho. Quando assumi, eu falei com todos os funcionários, disse que eles me conheciam, que eu me dedicava muito à empresa e que eu estava trabalhando ali por eles e pelas pessoas que estão nas casas delas também.

Se a empresa der certo, todo mundo vai crescer junto. Falei que tinha certeza que ia cometer alguns erros, mas que eu acreditava que ia corrigi-los rápido. No fim, fui muito bem recebida, muitas mulheres vieram falar que tinham orgulho de ver outra mulher no papel de country manager, mas eu concordo com o que você disse sobre esse receio que as mulheres têm de assumir certas posições.

Por quê?

Depois que assumi a posição, eu ofereci promoção para duas mulheres e elas não aceitaram. Elas foram para casa pensar, voltaram e negaram. Elas têm muito medo. Uma delas me falou que adorava ser mãe e eu disse que também amo ser mãe. Inclusive deixei de mudar de país por causa dos meus filhos, para que eles ficassem próximos do pai.

Consigo colocar o meu filho na cama todo dia, olhar a lição de casa dele, tomar café da manhã com o meu marido.

Claro que tenho uma ótima secretária por trás que organiza muito bem a minha agenda, mas elas também teriam uma parceira. No entanto, essas funcionárias acharam que não seriam capazes de conduzir as duas coisas do jeito que elas acham que deveriam ser conduzidas.

Como eu estava havia pouco tempo na posição, falei que gostaria de mostrar para elas que é possível sim manter os dois papéis inclusive no meu cargo. Você tem que respeitar a decisão das outras pessoas. Então quis primeiro mostrar que não precisa escolher.

Você tem conseguido mostrar que é possível administrar os dois lados?

Se eu tenho um compromisso na escola, a minha agenda fica bloqueada. O Henk veio ao Brasil para ficar três dias. A gente tinha uma agenda super extensa, com reunião com o governador, mas teve um dia que tive que falar para ele que não poderia estar presente porque era a apresentação do meu filho. Eu não podia não ir, porque, para meu filho, sou a coisa mais importante. Mas que havia várias pessoas que poderiam fazer a minha parte. Ele entendeu perfeitamente. Se você coloca na sua agenda, você consegue cumprir. Tenho provado isso, pelo menos nesse primeiro período que costuma ser mais desafiador, e mostrar para essas mulheres que elas podem fazer o mesmo.

Mas é comum as mulheres terem a “síndrome de impostora”, não se sentir competente o bastante para uma promoção quando na verdade somos. Acha que isso pode ter sido algo que tenha te deixado insegura?

A credibilidade da gente na gente em relação à competência é um pouco menos do que a do homem. O homem tem uma segurança que, mesmo que ele não seja competente, o leva a falar que é. A gente raciocina um pouco mais nesse sentido, mas é uma reflexão importante, interna, e não vejo problema nisso. Que é você pensar: “Será que estou dando um passo maior do que eu deveria?”. Consigo fazer isso de uma forma mais calma, mas será que é o momento da minha carreira para dar esse passo -e se não der, como eu me recupero disso? O homem não pensa no “e se”.

As mulheres levam em consideração a vida fora do trabalho. A empresa também está atenta a isso?

Com certeza. A empresa te dá todas as condições de ser flexível. Mas isso também vai depender muito do funcionário, porque você pode ser uma pessoa que não consegue gerenciar bem o seu tempo. Ou que acha que se falar que vai precisar sair mais cedo vai pegar mal. E aí entra a questão da diversidade na cabeça dos gestores.

Uma das suas dicas é impor a sua agenda. Como você vê isso na sua vida de maneira prática?

Assim que comecei a trabalhar com a minha antiga chefe, percebi que ela tinha um ritmo diferente do meu. Ela mandava e-mails e mensagens no domingo e esperava resposta. Na primeira vez eu respondi, mas na segunda, não mais, e ela entendeu. A gente nunca conversou sobre isso.

Espero que meus funcionários resolvam as coisas. A melhor coisa que você pode fazer é dar autonomia para as pessoas, porque se não, você não consegue ter a própria vida. Se você quer centralizar tudo, esquece. E tem gente que gosta de ser assim, mas eu prefiro delegar, eu sei que o time é preparado, tem que ter um time competente. É a melhor coisa para um gestor. E se não consegue tomar uma decisão naquele momento, espere o dia seguinte. Será que não é melhor realmente esperar 7 horas de sono da pessoa? Se você ficar 24 horas ligado, ninguém se desconecta.

Minha regra é que, se tiver algo emergencial, manda WhatsApp, porque não vou entrar em e-mail. É uma questão de educação.

E como você administra a rotina com seus filhos?

Comecei a ouvir sobre pais que queriam que as escolas abrissem aos sábados também para que eles pudessem descansar. Uma vez eu li uma matéria que dizia “se você não tem tempo para seus filhos, não tenha filhos”. Cheguei na minha filha de 16 anos e perguntei se ela achava que eu era uma mãe presente. Morrendo de medo da resposta. Ela falou que achava sim. Ela reclamou que eu às vezes pego o celular para ver coisas de trabalho quando estamos juntas. Vi, então, que tinha um ponto de atenção e comecei a deixar o celular longe.

As cobranças do mercado são diferentes para uma mulher em uma posição de liderança?

Sendo mulher, a gente costuma ter que mostrar mais no começo do que um homem. Ainda existe, no mercado, essa dúvida sobre se uma mulher é competente mesmo para estar naquela posição. Tem um pouco ainda dessa pegada. Primeiro você mostra que é competente e depois está todo mundo igual. Não é que você chega e, de cara, está todo mundo igual. No ponto de partida, a mulher está um pouco para trás. Tem que se provar um pouco mais para igualar.

E quando isso acontece?

Pode ser na primeira reunião. Nos primeiros cinco minutos da reunião. Às vezes demora um pouco mais do que isso.

Qual é a melhor maneira de lidar com esse primeiro momento?

Eu, pessoalmente, procuro estar preparada, porque sei que isso pode acontecer. Preparada para o assunto, então sei que isso vai passar mais rápido. Esse primeiro choque. Mas já aconteceu de, por exemplo, eu trocar de roupa porque vi na agenda que a reunião teria apenas homens. Porque a pior parte que pode acontecer com uma mulher é passar a impressão de que conseguiu alcançar uma posição por causa da aparência. É uma coisa que talvez eu não me preocuparia se estivesse em um fórum só de mulheres. Seria diferente, porque uma não está tentando ver se a outra realmente sabe do que está falando. A outra mulher tem a mesma sensação. Chega apenas para discutir o assunto.

Ainda é natural isso acontecer. E, do meu lado, ainda é natural eu saber que isso vai acontecer. Eu tenho essa cautela. Mas talvez as próximas gerações já cheguem chutando a canela.

Keiny Andrade/UOL

Fonte:https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/a-poderosa-patricia-frossard/index.htm#end-card

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